:::::RIO DE JANEIRO - 27 DE AGOSTO DE 2006 :::::

 

Folha de São Paulo
27/08/06
Varig "está saindo do CTI", afirma juiz
ENTREVISTA LUIZ ROBERTO AYOUB
Responsável pela recuperação judicial da empresa diz que não decretou falência porque aérea não é nociva à sociedade

JANAINA LAGE DA SUCURSAL DO RIO

LUIZ ROBERTO Ayoub, juiz responsável pelo processo de recuperação da Varig, afirma que o caso Varig prova o sucesso da lei de recuperação judicial. Mas diz que muitas vezes teve de fazer interpretações em cima do conteúdo da lei e adotar maior flexibilidade em relação a prazos e procedimentos para evitar a falência da aérea. A interpretação da lei é também motivo de discórdia entre a Justiça do Rio e a Agência Nacional de Aviação Civil. A Anac quer redistribuir imediatamente as rotas que não serão operadas nos próximos meses. Para o juiz, a Varig precisa de tempo para se reorganizar.

FOLHA - Como o senhor reage às críticas de que a Varig só não faliu porque o senhor não deixou?
LUIZ ROBERTO AYOUB - Ela não faliu porque o Judiciário entendeu que ela não se mostrava nociva à sociedade. Pode ser a Varig, uma padaria da esquina ou o boteco do seu Joaquim, caso qualquer empresa demonstre ser nociva para a sociedade, a obrigação do juiz é de extirpar essa companhia o mais rapidamente possível. Quanto às críticas, esse tipo de coisa faz parte do processo. Até eu me olho no espelho e me critico. Todas as decisões foram feitas com base na lei.

FOLHA - O que o caso Varig vai deixar como contribuição para o entendimento dessa lei?
AYOUB - Essa lei é nova e não foi construída para atender a uma empresa de aviação do porte da Varig. Os prazos e os procedimentos não são compatíveis com o tamanho e a complexidade da empresa. É uma questão de adaptação e muitas interpretações decorreram disso. Se fosse observar os prazos da lei, teria sido rigoroso na interpretação e quebraria a empresa pelo excesso de preciosismo. A lei vai ter que ser moldada e a jurisprudência deverá fazer esse papel.

FOLHA - A nova lei fracassou?
AYOUB - É uma lei que mostrou a que veio. A Varig era uma companhia aérea que estava há décadas em dificuldades, entrou em recuperação porque necessitava e, com todas as dificuldades do mundo, conseguiu chegar a leilão. A partir daí findou-se, do ponto de vista jurídico, o papel da lei. A empresa foi entregue ao mercado. Para mim, a lei é um sucesso. Bem ou mal, ela está saindo do CTI. Como disse Zuanazzi [Milton Zuanazzi, presidente da Anac], o tsunami já passou, agora está na hora de reconstruir. Existem interesses cruzados, agendas paralelas e muitos conflitos.

FOLHA - O senhor costuma dizer que é um juiz social. Como o senhor relaciona essa imagem com o veto ao bloqueio de US$ 75 milhões para o pagamento das rescisões trabalhistas dos 5.500 funcionários demitidos?
AYOUB - Sou um juiz social de um tribunal social. Recentemente trabalhamos a questão do crédito do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços], que é uma das fontes que pode ser usada para o pagamento do crédito devido aos trabalhadores. Não podia concordar com a decisão de bloqueio dos US$ 75 milhões dada pelo juiz do Trabalho porque ele entendeu que aquele valor pertencia à empresa remanescente. Segundo o plano aprovado pelos credores, era um valor de investimento na nova empresa para garantir a sua manutenção. Não existe emprego caso não exista empresa. A idéia é garantir a manutenção dessa empresa e com ela gerar novas vagas. Não sei como a Justiça do Trabalho vai lidar com a sucessão porque isso é de competência deles.

FOLHA - A Varig tem condições de absorver novos funcionários?
AYOUB - Hoje a empresa tem 2.100 empregados e já se tornou pública a previsão de compra de 50 aeronaves, o que resulta em 6.000 novos empregos. Ela vai gerar riquezas, empregos, recolher tributos, regular o mercado e evitar distorções no mercado e nos preços. Tenho experimentado no bolso o aumento das passagens, que é uma questão de mercado. Diminuiu a oferta, é natural que aconteçam reflexos no preço do bilhete.

FOLHA - A lei de recuperação de empresas afirma que não há sucessão de dívidas no caso da venda de uma unidade produtiva isolada. Vender todas as operações da Varig está de acordo com a lei?
AYOUB - A jurisprudência vai mostrar mais tarde os acertos e os desacertos. Não podemos ficar tímidos diante da interpretação da lei. Buscamos a solução melhor para garantir a manutenção da companhia. A Varig remanescente é viável e por isso estipulamos que ela precisa manter operações de vôo. Ela não tem liquidez, mas tem ativos como a defasagem tarifária e o ICMS dos Estados.

FOLHA - Como o senhor avalia a disputa com a Anac sobre a redistribuição de linhas da Varig?
AYOUB - A agência pode discordar e recorrer, ela tem o direito legítimo de recorrer. O que não se pode fazer num Estado democrático de Direito é dizer que a decisão judicial não é cumprida. Isso ninguém pode fazer. Nem um juiz pode descumprir decisões de tribunais superiores, temos de respeitar a hierarquia. Enquanto não houver recurso, a decisão prevalece.

FOLHA - Por que a Varig ainda deve manter as linhas?
AYOUB - Consta nos autos do processo que a Anac encaminhou um ofício ao juízo comunicando que o prazo para a nova Varig operar sua frota é de 30 dias a contar da assinatura do contrato de concessão para linhas regionais e de 180 dias no caso das linhas internacionais. O ofício faz referência à portaria 569 da Anac e a decisão foi tomada com base neste documento. Não sou dono da verdade, se estiver no caminho certo o tribunal dirá.

FOLHA - É justo a empresa permanecer tanto tempo com as rotas sem operar?
AYOUB - A lei estabelece o prazo. Estamos falando de uma empresa de aviação bastante complexa e é razoável que haja prazo suficiente para ela se organizar. Ainda mais uma empresa em recuperação judicial. Ao final do leilão, a empresa tinha três aeronaves. Ela tem que estar daqui a pouco com 30. Não sei se esse prazo é razoável, mas é o que consta na lei.


Frase
Pode ser a Varig, uma padaria da esquina ou o boteco do seu Joaquim, caso qualquer empresa demonstre ser nociva para a sociedade, a obrigação do juiz é de extirpar essa companhia o mais rapidamente possível
LUIZ ROBERTO AYOUB juiz do processo de recuperação da Varig

 

 

Jornal o Brasil
27/08/06
Ônibus comemora crise no ar
Rafael Rosas

A crise da Varig e o caos nos aeroportos brasileiros tiveram o seu lado bom. Pelo menos para as empresas de ônibus, que nos últimos anos, com a melhora da renda e a entrada de empresas de baixas tarifas no setor de aviação, enfrentaram a concorrência agressiva de companhias aéreas. A redução da oferta de assentos causada pelo encolhimento da Varig e a conseqüente alta nos preços das passagens aumentaram o volume de passageiros transportados por rodovias.

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), as 216 empresas que enviaram dados à agência transportaram no primeiro trimestre do ano passado 35,9 milhões de pessoas. Em igual período deste ano, as 191 empresas que enviaram informações transportaram 36,2 milhões. O efeito pode ser sentido no eixo Rio-São Paulo, considerado o filé mignon do transporte aéreo nacional.

O transporte entre a Rodoviária Novo Rio e o Terminal Tietê , em São Paulo, é feito pelas empresas 1001, Itapemirim, Expresso do Sul e Expresso Brasileiro. Expresso do Sul e 1001 confirmam alta no total de passageiros transportados nos últimos três meses.

A reviravolta para as empresas rodoviárias também pode ser explicada pela perda de intensidade da queda dos preços das viagens de avião. As tarifas aéreas de ida e volta entre Rio e São Paulo variam de R$ 280 a R$ 654,04. Já as passagens rodoviárias nos ônibus leito - as mais caras - custam R$ 164, também ida e volta.

O avanço mais robusto é da Expresso do Sul: alta de 6% nos passageiros transportados entre as duas cidades desde junho devido à crise da Varig.

- Não há dúvida de que houve crescimento devido à fuga de passageiros do setor aéreo - diz a gerente de Recursos Humanos, Waldéa Portela.

A 1001, líder do transporte Rio-São Paulo, com cerca de 60 mil passageiros por mês, viu o número de clientes crescer 2% nos últimos três meses.

- Nosso principal concorrente é o avião - diz o superintendente Márcio Barbosa. - É dele que temos que tomar o passageiro. E o setor rodoviário tem se modernizado para competir com o aéreo.

 

 

Revista Época
27/08/06
Aviação: As perguntas que ficaram sem resposta depois da venda da Varig
“Não tenho nada a ver com a Varig"
Marco Antonio Audi diz que só comprou a marca e as rotas da empresa aérea. E que age dentro da lei. “Quem me investiga são meus inimigos”

Eduardo Vieir

Arq. Ed. Globo
O advogado Roberto Teixeira

ÉPOCA Por que o senhor comprou a Varig?
Marco Antonio Audi
A vida é assim: existem os que querem, os que querem mais e os que vão lá e fazem. Então é preciso ter coragem para fazer as coisas. Mas é difícil. Estamos aqui seriamente trabalhando 24 horas por dia e vem gente te difamar em público. Tem aquele cara do Snea, que eu até esqueci o nome. Anchieta, não é? (Audi pergunta para seu advogado, Dr. Roberto Teixeira, que confirma com a cabeça. Audi se refere a Anchieta Hélcias, diretor do Sindicato Nacional das Empresas Aeronáuticas).

Eu vi esse senhor uma vez na vida, numa reunião que durou 5 minutos. Ele me tratou tão mal que eu levantei e fui embora. Ele nunca me viu na vida. Não sabe quem eu sou. Acho que, antes de você meter a boca em alguém, você tem que dar o direito de a pessoa se defender. Mas ele não fez isso. Mas tem os interesses dele, é claro. É diretor da TAM. Acho que é escondido, não sei. Olha, eu acho que a concorrência é uma coisa feroz, mas é preciso ter um limite.

E elas (TAM e Gol) passaram do limite. Estão agindo de uma forma cruel. Estão atropelando a concorrência saudável entre empresas para atacar o meu lado pessoal. A TAM, por exemplo. É uma empresa grande, maravilhosa. Veio do nada, como nós estamos chegando agora. Conheci o Comandante Rolim, ele era uma pessoa maravilhosa. Mas estão agindo, ou no nome do Anchieta, não sei, de uma forma cruel. Estão sendo cruéis. As pessoas falam: "ah, comprou (a Varig) porque arrumou um fundo pra bancar". Quem me investiga são meus inimigos, meus rivais. Não é fácil conviver com isso, amigo. Trabalhei a vida inteira para conseguir arrumar um parceiro desses (o Matlin Patterson).

ÉPOCA Como o senhor arrumou essa parceria?
Audi
É algo comum nos meus negócios. Por exemplo, eu tenho um fundo que participa de uma empresa nossa, que é o Phoenix. Tem a Rio Bravo, que participa de outro. Vamos andando no mercado e os fundos nos procuram em busca de oportunidades de negócio. É natural. Foi assim com o Matlin Patterson. O que acontece: você desenvolve um business plan, o cara tem que acreditar em você como negócio e como pessoa. Você pode ser um avião de performance e desonesto, eles não querem. E pode ser honesto mas fazer eles perderem dinheiro, então eles também não querem. Então acho que o fundo tem que acreditar no business plan e em você para liberar o investimento do tamanho que eles liberaram para a gente. É um investimento que não tem fim.

ÉPOCA Quanto eles liberaram de investimento?
Audi
Na parte deles na VarigLog, em torno de US$ 25 milhões. Por enquanto. Mas eles liberaram o acesso a outras fontes. Quando você é parceiro de um fundo desses, começa a acessar créditos.

ÉPOCA E quanto eles investiram na Varig?
Audi
Por enquanto não houve investimento direto da Matlin na Varig. Quem investiu foi a VarigLog.

ÉPOCA Então o único dinheiro que a Matlin Patterson colocou na aviação brasileira foram esses US$ 25 milhões na VarigLog?
Audi
Não, não. Colocou mais. Conseguimos empréstimos em cima de garantias que nos foram dadas pelo Matlin.

ÉPOCA Quer dizer que o senhor tomou empréstimos com garantias oferecidas pelo fundo, é isso?
Audi
Mais ou menos. Sinceramente não é nem uma garantia, mas o fato de eles estarem conosco nesse empreendimento.

ÉPOCA Então diretamente eles colocaram US$ 25 milhões. E, indiretamente, eles ajudaram vocês, os sócios brasileiros, a tomar empréstimos.
Audi
É isso. Exatamente.

ÉPOCA Essa história de dinheiro é bem complicada, Marco. Nós conseguimos alguns documentos...
Audi
(Interrompendo) Quero te dizer o seguinte: pode perguntar para mim o que você quiser.

ÉPOCA Perfeito. Tenho muita coisa para perguntar. Mas, enfim, alguns documentos do Banco Central mostram remessas de dinheiro vindas do exterior envolvendo algumas empresas. Temos um documento que mostra uma remessa de US$ 20 milhões em...
Audi
(Interrompendo). Sabe quanto investimos? US$ 80 milhões. Não foram só esses US$ 20 milhões. Esse dinheiro veio e a maioria dele já saiu.

ÉPOCA Como assim saiu? Esse dinheiro não foi usado no Brasil?
Audi
Não. Quer dizer, foi usado para comprar os recebíveis da Varig. E foi parar no caixa da Varig antiga. Deixa eu te explicar o que aconteceu: a Varig estava morrendo. Quando ela teve que depositar US$ 56 milhões em Nova York, em novembro de 2005, faltavam US$ 20 milhões. E no dia em que ela precisava depositar, não tinha dinheiro. Mas o juiz americano falou: trato é trato. Se não pagasse, a Varig morria naquele dia.

ÉPOCA Daí a Varig pediu o dinheiro emprestado para vocês?
Audi
Não. Eles falaram que estavam faltando US$ 20 milhões e que o buraco ia complicar a empresa. Daí nós fizemos a primeira operação de desconto desses recebíveis. Eu não podia fazer com os nossos recursos. Daí falei ao Matlin se ele podia fazer. E eles fizeram. Foi exatamente isso que aconteceu. Foi dinheiro deles, oficial, via Banco Central. US$ 20 milhões.

ÉPOCA Em que data chegou esse dinheiro?
Audi
Se não me engano, em novembro do ano passado.

ÉPOCA Segundo os documentos do Banco Central, não há remessa registrada em novembro. US$ 20 milhões chegaram ao país para a Volo apenas em março. No ano passado não há registro...
Audi
Não? Bom, daí eu não sei te dizer. A gente pode ver qual foi o caminho. É uma coisa que eu não controlo, na verdade. Não sei quando veio. Mas o fato é que está tudo limpo.

ÉPOCA Então quer dizer que, mesmo antes de vocês fecharem negócio com a VarigLog, vocês ajudaram a Varig financeiramente.
Audi
Isso. É uma coisa do Matlin. Não é uma coisa nossa. Nós somos operacionais. Nem nos envolvemos.

ÉPOCA Mais ou menos, não é? Como a Matlin é sócia da Volo, então há uma ligação entre vocês. Há envolvimento.
Audi
Sim. Nós não negamos que há envolvimento. O Matlin é nosso sócio.

ÉPOCA Há envolvimento, então?
Audi
Nós não negamos que há envolvimento. O Matlin é nosso sócio.

ÉPOCA OK. Há também documentos que mostram remessas em junho de 2006. São depósitos de pouco mais de US$ 1 milhão vindos do banco JPMorgan Chase para contas em seu nome, pessoa física, e dos seus sócios, também pessoas físicas.
Audi
Também está registrado.

ÉPOCA Esses valores correspondem a quê? Comissões, pró-labore?
Audi
Não. São empréstimos.

ÉPOCA Empréstimo para quê?
Audi
É parte do nosso investimento. Foi usado para complementar o que tínhamos que fazer da nossa parte.

ÉPOCA Qual é o investimento dos sócios brasileiros na Varig?
Audi
80% do capital votante.

ÉPOCA Quer dizer que vocês possuem, os três, 80% das ações ordinárias da empresa?
Audi
Exatamente. Isso é equivalente a 40% do capital total.

ÉPOCA E os outros 60% do capital total?
Audi
Matlin Patterson. A preocupação da lei é que 80% do capital votante esteja nas mãos de brasileiros. Quando eu montei essa operação, fiz dentro da lei.

ÉPOCA Quer dizer que vocês controlam a empresa, mas investiram pouco nela. Isso é incomum, não?
Audi
Não é incomum, não.

ÉPOCA Quem manda na empresa não é o sócio que investiu mais?
Audi
Nem sempre. Vai ver uma Previ, esses fundos. Eles não querem mandar em nada. Eu conversei outro dia com o presidente de um fundo de pensão e ele me disse que controlar é problema. Eles não querem o negócio na mão deles.

ÉPOCA Mas se o Matlin tem o dinheiro, então manda. Não?
Audi
Não. Eles só têm o dinheiro e decidem os investimentos. Ponto. Eu acho engraçado as pessoas falarem disso. Todos os órgãos públicos olharam os nossos documentos (Audi dirige-se ao advogado Roberto Teixeira), não é, Dr. Roberto? (O advogado assente com a cabeça).

ÉPOCA Bem, uma vez declarada a origem do dinheiro... A legislação é clara ao se referir ao capital votante.
Audi
São duas coisas separadas. As pessoas fazem confusão. Uma coisa é a origem do dinheiro e outra é a origem do capital. O Snea brigou com a gente por causa da origem do capital. O capital é de brasileiro ou não? Essa foi a briga. A origem do capital. Foi lá na Anac, no Ministério Público e não teve jeito. O capital é brasileiro. Sabe o que o Snea fez? Começou a questionar a origem do dinheiro. São duas coisas diferentes que se confudem.

ÉPOCA Na verdade não se confudem. Me parece que origem do dinheiro e origem do capital são a mesma coisa. Já a origem do dinheiro e a composição do capital são coisas distintas. A discussão aqui é a composição do capital ordinário e preferencial. Quando falamos do ordinário, 80% dele têm de estar nas mãos de brasileiros.
Audi
Isso. A composição do capital.

ÉPOCA É, porque o dinheiro sai de algum lugar. Aliás, qual é a origem do dinheiro?
Audi
É nossa.

ÉPOCA Nossa de quem?
Audi
A Mattlin é sócia da Volo do Brasil. Do total de ações da empresa, 50% são preferenciais e 50% são ordinárias. Das 50% ordinárias, nós, os sócios brasileiros, temos 80%. A Mattlin tem os outros 20%. Isso significa que nós, sócios brasileiros, temos 40% do capital total da empresa. E a Mattlin tem os outros 60%, porque ela detém a totalidade das preferenciais.

ÉPOCA Quer dizer que o dinheiro é 40% de vocês e 60% da Mattlin?
Audi
Isso.

ÉPOCA 60% é da Matlin.
Audi
Isso. Copiamos um modelo super comum no mercado.

ÉPOCA Os 40% da empresa restantes são de vocês três, Audi, Gallo e Haftel?
Audi
Isso.

ÉPOCA E quanto vocês três investiram de dinheiro para ter essa fatia da empresa?
Audi
Ah, não lembro de cabeça. O dinheiro para investimento nós fizemos empréstimo. Mas não sei dizer os totais.

ÉPOCA Só vocês três?
Audi
A VarigLog.

ÉPOCA Ou seja, junto com a Mattlin.
Audi
Isso. Novamente, a Mattlin tem 20% do capital votante, ou 60% do capital total, da Volo do Brasil. A Volo tem 95% da VarigLog. E a VarigLog tem 100% da Varig Nova.

ÉPOCA A Volo do Brasil tem 95% da VarigLog?
Audi
Isso.

ÉPOCA E os outros 5%?
Audi
São da Varig antiga.

ÉPOCA Entendido.
Audi
É como se fosse uma holding.

ÉPOCA OK. O senhor é uma pessoa rica?
Audi
Não, sou uma pessoa trabalhadora.

ÉPOCA Seu patrimônio é grande?
Audi
Não tem a ver falar sobre isso.

ÉPOCA O senhor tem dinheiro no exterior?
Audi
Não. Nada. Nenhum investimento fora. Não tenho apartamento fora do Brasil. Não tenho casa de praia nem no Brasil. Não tenho barco. Não gosto de despesa fixa. É dor de cabeça. Eu trabalho 24 horas por dia, amigo. Se você me ligar no sábado ou domingo, vai me encontrar trabalhando. Eu durmo, em médias, 3,5 horas por dia. Todos os dias vou dormir as quatro e meia ou cinco da amanhã e acordo às sete e meia ou oito. É um costume. Fico de madrugada bolando as coisas que eu tenho que fazer, lendo e-mails. Essa pergunta de ser rico... Rico é aquele que vive como rico. Eu vivo para trabalhar. Sou uma pessoa sozinha, não tenho esposa. Dedico aos meus negócios e aos meus parceiros.

ÉPOCA OK.
Audi
Eu vou falar uma coisa para você. Eu detesto tomar bronca de guarda de trânsito, amigo. Por isso faço tudo direitinho. Contratamos os melhores advogados e as melhores consultorias para fazer tudo direitinho. Eu detesto, detesto levar bronca de guarda porque estou andando acima do limite de velocidade. Por isso eu não ando. Da mesma forma, não faço nada errado nos negócios. Porque eu não quero amanhã ser chamado por você para me perguntar sobre essas coisas. Tudo é quadradinho para mim.

ÉPOCA O senhor é responsável pela Química Industrial Paulista?
Audi
Nunca fui responsável por essa empresa. Nem fui diretor dela, nem acionista nem nada. Era uma empresa do meu pai (o empresário Nagib Audi), fundada por ele. Nunca fui responsável por ela. Pode levantar na Junta e onde você quiser. Você verá. Posso ser sincero com você?

ÉPOCA Claro.
Audi
Esse é um assunto que me irrita para caramba. Os caras falam umas idiotices sobre mim, dizendo que eu tenho alguma coisa a ver com a Química. Tanto é que nunca fui nada em relação a essa empresa que fiquei brigado com meu pai. Não falei com ele durante cinco anos. Só voltei a falar um pouco antes dele morrer.

ÉPOCA É que nos temos alguns cheques da Química Industrial Paulista em que constam a sua assinatura. Mostram que o senhor assinava sozinho pela empresa.
Audi
É ridícula essa acusação. Olha, amigo, se você pegar... Eu simplesmente era filho dele. Uma vez ele sofreu uma úlcera, quase morreu e me deu uma procuração. Eu era o único filho dele que ele falava "olha, assina por mim".

ÉPOCA Entendi.
Audi
Por procuração. Está mais do que explicado isso.

ÉPOCA Então o senhor assinava porque tinha a procuração, não porque mandava na empresa. Assinava pela empresa porque o seu pai deixou uma procuração em seu nome.
Audi
Nunca tive nada com a empresa. Só assinei porque era filho e em condições especiais. Quando ele estava viajando... É algo comum. A minha ex-mulher assina em empresa minha quando eu estou viajando. Ex-mulher? É. É a pessoa que eu confio. Não tenho outra pessoa.

ÉPOCA Entendi.
(Dr. Roberto Teixeira fala ao fundo: "Isso é coragem!").
Audi Não, é confiança.

ÉPOCA Certo. O senhor lembra onde estava em 1995?
Audi
Não...

ÉPOCA Parece uma pergunta fora de contexto, mas é importante. O senhor estava no Brasil?
Audi
Estava. Nunca saí do Brasil. Nunca morei fora.

ÉPOCA Porque nós descobrimos um documento, na verdade um perdão de uma dívida. O senhor foi perdoado de uma dívida do banco CCF. Eles alegaram que o senhor não tinha domicílio fixo no Brasil em 1995 e não foi encontrado para pagá-la.
Audi
Ridículo. Não foi isso. Não é que perdoaram. Quem devia para o CCF naquela época era a Química Industrial Paulista. Entendeu, não? Quando eles meteram a ação, eles meteram a ação, eu não me lembro porque eles meteram a ação. Se eu tinha sido avalista de um empréstimo ou alguma coisa assim.

ÉPOCA Da Química?
Audi
É. Não, de uma outra empresa do meu pai. Não me lembro de qual. Depois, quando o banco moveu a ação, ele me excluiu da ação. Simplesmente falou "ó, o cara não tem nada com isso". Foi isso.

ÉPOCA É que nós temos esse documento. O banco diz claramente que você foi perdoado porque não foi encontrado. E não tinha recursos. Nós falamos com o escritório de advocacia do CCF na ocasião e eles confirmaram a história.
Audi
Tudo bem. Se não me encontraram, não me encontraram. Mas não que eu morasse fora, pois eu nunca morei fora.
(Dr. Roberto Teixeira: "É a primeira vez que eu ouço que um banco perdoou uma dívida porque não encontrou uma pessoa".)

ÉPOCA Isso não é comum mesmo. É bem estranho, não é?
(Dr. Roberto Teixeira: "Eu não conheço, estou falando de fora, mas em Direito isso significa que era parte ilegítima para estar no foro...")
Audi (Interrompendo) Isso, era ilegítima. Como chama? É aval de ascendente, ou de descendente. Alguma coisa assim. Aí eles queriam me tirar porque....Sabe o que eu acho que eles fizeram aqui, Dr. Roberto? Eu poderia ter atrapalhado. Eu não ia fazer isso, mas eu não me dava com o meu pai na época. Eu não falava com ele. Tive uma briga com ele, uma coisa minha particular. E eu acho que eles me excluíram disso, estou me lembrando agora, acho que eles me excluíram disso para que eu não atrapalhasse a ação deles contra o meu pai.
(Dr. Roberto Teixeira: "O teu direito criaria uma dificuldade...")
Audi Isso, exatamente. Criaria uma dificuldade dentro do processo. Eu nem fiquei sabendo disso. Você pode ir atrás desse processo. Pergunta se tem uma assinatura minha. Eles me excluíram simplesmente. Eles excluíram. Porque parece que eu podia ser uma pedra no sapato deles. Mal sabe eles que eu estava tão brigado com o meu pai na época...
(Dr. Roberto Teixeira: "Isso".)
Audi Mas vê lá. Manda pegar isso. Vê lá. Vê se eu assinei algum acordo dizendo que eu to fora. Não assinei. Entendeu, não?

ÉPOCA Entendi.
Audi
E a coisa continuou. Era um processo contra uma das empresas dele...

ÉPOCA OK. Mas deixa eu entender uma coisa: você estava brigado com ele e, mesmo com a briga, ele te deu uma procuração para assinar aquele cheque da Química?
Audi
É, eu estava brigado... É o seguinte. A gente tinha brigado no trabalho. O que acontece: a gente tinha cabeças diferentes. Eu tinha um direcionamento... Eu comecei a trabalhar com ele aos 13 anos de idade. Comecei desde cedo. Mas chegou uma hora que eu tinha a minha opinião e um caminho a seguir e ele tinha o dele. Só que ele era o dono.

ÉPOCA Compreendo.
Audi
Quem ganha a briga? Era o dono e pai.

ÉPOCA Competição injusta.
Audi
Completamente injusta. E pai bravo. Para você ter uma idéia, eu fui dar um beijo no rosto do meu pai quando ele estava morrendo na cama.

ÉPOCA Nossa.
Audi
É uma educação meia, meia não, forte. E vou te dizer o seguinte. Vou te contar porque eu voltei. Eu ainda era a pessoa em que ele confiava. Tá certo? Então eu tinha a procuração. Quando precisava, vinha o papel para assinar e eu assinava. Não tinha problema nenhum. Eu não misturava as coisas. Tinha a minha mãe, tenho os meus irmãos. Entendeu, não? Mas eu jamais trabalharia com ele de novo por nada na minha vida. Por nada, nada, nada. Não tinha mais conversa de negócios. Eu já estava seguindo o meu caminho empresarial. E uma das brigas que ele teve comigo foi porque ele disse que eu abandonei ele, sabe aquelas coisas de pai e filho?

ÉPOCA Sei.
Audi
Foi isso. Entendeu? Não adianta imputar uma coisa que não foi realidade. Eu nunca falo isso para ninguém porque é uma coisa muito particular. Amanhã você vai botar "ah, ele era brigado com o pai". Eu vou te contar uma história para você entender a verdade da coisa. Eu fiquei cinco anos sem falar com o meu pai. Eu tinha procuração, tal, mas não misturávamos as coisas. Eu era a pessoa que ele falava "esse cara não vai me roubar". Acho que, na realidade, era isso.

ÉPOCA Qual é a sua história com o sr. Jefferson Araújo de Almeida (ex-sócio que briga com Audi na Justiça)?
Audi
A história do Jefferson não é comigo. É com o meu pai. Ele era sócio do meu pai. Numa empresa chamada Tucson Aviação. Eu comprei essa empresa do meu pai e aí comecei minha vida empresarial. Meu pai não me dava nada de graça, para filho nenhum, para ninguém. Então fui lá e comprei dele. Ele já tinha uma briga societária com o Jefferson. Sei lá o que eles tinham. Quando eu entrei na empresa, lá para 1994 e 1995, não tinha nada contra o senhor Jefferson de Almeida. Daí cheguei para ele e disse: "Olha, você não me conhece e eu não te conheço. Toca o seu negócio e eu toco o meu, daí a gente usa essa empresa como a nossa, a nossa coisa.

ÉPOCA Que coisa?
Audi
Nós fizemos um acordo. Nunca tive briga com o Jefferson. Até um dia em que eu recebi uma notificação dele dizendo o seguinte: "ou você me paga R$ 30 mil por mês fixos ou eu vou paralisar a empresa". Eu não sou um cara de conversar muito. Então, peguei essa notificação e entrei na Justiça contra ele. Daí o Jefferson parou de assinar os cheques da empresa. Os empregados todos ficaram sem salário. Daí o juiz um dia chamou a gente. Ele perguntou porque o Jefferson parou de assinar os cheques. Daí o Jefferson falou um monte de besteiras e o juiz falou: "O senhor não tem direito. Um sócio seu não pode lhe pagar um salário. E o senhor não pode se negar a assinar os cheques de funcionários. O senhor não está assinando cheques para o seu sócio. Aí ele (Jefferson) discutiu com o juiz. O juiz disse: "Você tem certeza que quer discutir comigo?". O Jefferson disse que sim. E o juiz o afastou da administração. Começou assim.

ÉPOCA OK.
Audi
Quando ele foi afastado, começaram a aparecer os problemas. A gente vem nessa discussão. E ele vem tentando, até o julgamento final, que vai ser agora, imputar uma série de acusações idiotas a meu respeito.

ÉPOCA Ele fala sobre a história da falsificação de assinatura de um sócio...
Audi
(Interrompendo) Nunca teve falsificação de assinatura. Não era sócio. A história é a seguinte. O nome dele é Palmarino Landi Neto. Ele foi meu segundo pai. Trabalhou com meu pai, sei lá, por 50 anos. Numa empresa minha, ele tinha 0,1% do capital, o equivalente a R$ 800, porque uma empresa têm de ter dois sócios pela lei. E ele deixou um papel assinado com meu diretor administrativo, Reinaldo Papacidro. Um dia eu precisava modificar o diabo do contrato social da empresa, botar uma coisa lá, e o Reinaldo usou o papel.

ÉPOCA Um papel assinado em branco?
Audi
Foi por um erro. Vou dizer o porquê. Por que o contrato social permitia a mudança sem a assinatura dele. Ele tinha 0,1%. Então foi um erro. Houve um erro. Fomos à Junta, explicamos, cancelamos aquele contrato e fizemos outro.

ÉPOCA A Junta Comercial anulou o contrato por conter vício de validade (falsificação de assinatura).
Audi
Nós fomos lá e fizemos outro. Está tudo regularizado. Não existe fraude, desculpe. Daí o Jefferson arrumou um perito no interior do Paraná que disse que a assinatura era falsa. Eu disse para o Jefferson: "Se a assinatura é falsa, quem assinou?". Você entendeu? Isso é briga de marido e mulher. Ele (Jefferson) se sentiu muito prejudicado. Não é só isso que ele fala contra mim. Ele fala o negócio do governo do Estado, da licitação da Polícia.

ÉPOCA Existe um parecer da Assessoria Técnica do Tribunal de Contas do Estado dizendo que essa licitação foi irregular.
Audi
Não.

ÉPOCA Existe. Diz que a empresa que o sr. tem, chamada Lumber, devia ser desclassificada da licitação. Inclusive o tribunal notificou a Polícia Civil. E também há problemas com Infraero. O sr. pode explicar essas histórias?
Audi
Eu tenho uma briga com a Infraero. No auge da briga, ele (Jefferson) foi lá e cutucou a Infraero. (Audi vira-se para o Dr. Roberto Teixeira: "Aqueles negócios que você conhece bem da Infraero. Não há ninguém nessa sala que conheça melhor do que você a Infraero"). A Infraero veio e me notificou. Disse que, quando o contrato vencesse, ele não seria renovado. Como? Eu construí esse negócio aqui (o hangar). Nunca atrasei um pagamento. Nunca fiz nada.

ÉPOCA Mas a concessão estava regular?
Audi
Estava totalmente regular.

ÉPOCA É que a Infraero diz que não estava.
Audi
Eu tenho uma briga com a Infraero. É uma briga de renovatória de contrato. Só isso. A história é a seguinte. Quando estava chegando no fim do contrato, a Infraero me notificou e disse que não tinha interesse em renovação do contrato. Aí eu perguntei o porquê. Eles me disseram que eu tinha uma briga judicial com o meu sócio e eles não tinham interesse. Mas não é assim. A lei está aí para aqueles que estão sendo injustiçados. Aí eu disse que o sócio havia sido afastado, que a empresa tinha 32 anos de atividade no mercado e 400 pessoas trabalhando. Não pensa que é falar assim pra mim "não vamos renovar". Entrei na Justiça, ganhei uma liminar e estou na briga. Nunca deixei de pagar nada.

ÉPOCA A Infraero diz que você devia. Algo como R$ 200 mil, que você só pagou quando entrou com a liminar.
Audi
Não lembro disso não. Mas tudo bem. Se foi, foi por causa da briga com o Jefferson. Eu nunca tive problema de dinheiro. O negócio é o seguinte: se existia alguma pendência, foi tudo pago. Se não foi pago, foi por causa do Jefferson. Eu nunca tive problema de caixa. Não atraso minhas contas.

ÉPOCA Sobre a acusação de fraude da licitação Polícia...
Audi
(Interrompendo) É importante eu falar isso. É o seguinte. Um dia eu estou lá trabalhando e vem um diretor da Polícia e me diz que estavam saindo de um hangar de lá. Não temos onde ficar. Sabe o que eu fiz? Disse "olha, temos aqui o espaço, pode ficar. Eu não te cobro nada. Fica aqui. Você não vai deixar o helicóptero na rua".

ÉPOCA Não tinha licitação.
Audi
Não. E nem eles me pagaram por isso.

ÉPOCA Foi na camaradagem.
Audi
Isso, totalmente na camaradagem. A Polícia queria ficar, mas daí precisava de licitação. Então íamos participar da licitação com a Tucson. Mas não dava, porque o Jefferson estava brigado comigo. Então participamos com a dona da Tucson, a Lumber. Tem algo ilegal? Todos os meus advogados dizem que não.

ÉPOCA OK.
Audi
Só para você ter idéia de como eu sou correto e direito. Essa é a verdade a respeito dessa fortuna que eu recebo da Polícia, que é de R$ 9 mil por mês. Para deixar dois helicópteros lá e ter 25 policiais bebendo água e tal. Se não são R$ 9 mil, são R$ 10 mil. Esse é o tal contrato de licitação. É um número ridículo.

ÉPOCA Nós conversamos com várias pessoas do mercado de aviação. Pessoal do Campo de Marte, seus concorrentes, funcionários da Varig, ex-funcionários da Varig, empresas de manutenção etc. É comum um estranhamento pelo fato de a Volo ter comprado a Varig. Principalmente em relação à sua figura. Por que o senhor acha que existe esse estranhamento? As pessoas falam que o senhor nunca teve dinheiro para comprar a Varig, que não tem experiência na aviação civil.
Audi
É o que eu te disse no começo. Tem aqueles que pensam e não fazem. Eu faço. Tudo o que eu me propus a fazer na minha vida eu fiz. A única coisa que eu ganhei de alguém foi meu primeiro carro, um Passat 1979 do meu pai. O resto eu tive que conquistar. Nunca mais eu tive nada de ninguém. Eu fiz a minha vida. As pessoas falam que eu sou agressivo. Sou um empresário agressivo? Sou. Sou sim.

ÉPOCA Falaram que você anda armado.
Audi
Não. Claro que não... (Silêncio). Que ridículo. Claro que não. É o tal negócio: quantas pessoas não gostariam de ter comprado (a Varig). Quantas? Onde eles estavam na hora de comprar? Eles deviam estar tomando um choppinho enquanto eu estava aqui, pensando, tentando convencer investidor americano a pôr dinheiro, a ver como é que faz. Não é fácil. Eu vejo todos os meus amigos, empresários. Eu estou aqui às dez e meia da noite e tem amigo meu me ligando. "Pô, cara, vem para cá pro bar". E eu trabalhando. Essa é a diferença. Isso talvez incomode muita gente. Porque eles queriam a Varig, mas eu comprei. Vai lá no Campo de Marte para ver a situação do mercado de aviação daqui. Você rodou os hangares?

ÉPOCA Sim.
Audi
É tudo cheio de teia de aranha. Hangar sem pintar. Um bando de mortos. Eu falo mesmo, não tenho papas na língua. Cada um tinha de fazer da sua empresa A empresa. Porque a minha dá maior número de empregos, nunca passou necessidade de capital? Porque eu trabalhei muito, amigo. Agora, o cara está ali, é um ciclo vicioso. Não troca a luz por causa disso, não troca o piso por causa daquilo. Nada de luxo. Mas é bem cuidado. Ninguém me liga para falar coisa boa. É aquele tal negócio. Você pega um bom diretor, um bom gerente e dá uma meta pro cara, ele vai lá e alcança a meta. E fica satisfeito. Consegue chegar lá. Eu nunca estou satisfeito. Nunca consigo chegar lá. A minha cabeça está tão na frente que, na hora que eu consegui uma coisa, ela já é passado. É a eterna busca do fazer, pois estou sempre na frente. Eu queria dizer uma coisa para você. Só nasce grande de um jeito: herdado. Eu nunca herdei nada. Você está me achando grande hoje como empresário, você vai ver o que eu ainda vou fazer. Eu comecei do nada. Teria nascido grande se eu tivesse nascido filho do Antonio Ermírio de Moraes.

ÉPOCA Bom, seu pai era um grande industrial paulista. Tinha muito dinheiro?
Audi
Tinha. Mas sabe quanto eu vi do dinheiro dele? Nada.

ÉPOCA Ele não te deixou herança?
Audi
Eu abri mão da minha herança.

ÉPOCA Por que?
Audi
Porque sim. Deixa ela lá para os meus irmãos, tenho um monte de irmãos que precisam mais do que eu.

ÉPOCA Quantos irmãos você tem?
Audi
Sete. Ficou tudo para eles. Abri mão do dinheiro. Sempre tive negócio meu. As pessoas falam "nossa, como ele conseguiu (comprar a Varig)? Não tinha dinheiro para isso". Olha, se eu tiver dinheiro para bancar o que eu quero na minha vida, é porque o negócio é pequeno para mim. Entendeu, meu amigo?

ÉPOCA Entendi.
Audi
É assim que a gente vai crescendo? Incomoda as pessoas? Eu sei que incomoda. Tanto os que não fizeram quanto a concorrência. Era previsto que a Varig sobrevivesse? Não. Todos pensavam que ela estava morta. Estavam festejando. Mas ela não está morta. Ela vai voltar para o espaço e atrapalhar as grandonas. Uma coisa eu quero que você entenda. Você nunca vai ouvir mentira minha. Vai ouvir o que eu penso. Você pode até não gostar do tom, mas sempre vou ser 100% sincero. Eu sou assim. Se não dá para fazer, pode ser cruel, mas eu vou falar que não dá para fazer. E algumas pessoas se incomodam com isso. Ou o cara me odeia ou me ama. Não tem mais ou menos.

ÉPOCA De acordo com tudo isso que você falou, se está tudo direitinho e transparente, porque o senhor está sendo processado por várias pessoas e é acusado de lavagem de dinheiro? Por que o senhor está sendo investigado por três Ministérios Públicos? Procuradoria Geral da República, da Fazenda Nacional...
Audi
Posso te falar um negócio? Isso é uma crueldade porque eu consegui fazer o negócio da Varig. Mas eu ponho a minha vida aberta para qualquer um desses. Contratem qualquer um. Eu desafio essas instituições. Eu sou 100% certo. Já entreguei minha defesa a todos esses órgãos. Tem gente que não gosta de mim mesmo. As pessoas me perguntam quantos eu vou demitir. Eu nunca demiti ninguém.

ÉPOCA E os 5 500 das últimas semanas?
Audi
Não fui eu. Quem demitiu foi a Varig.

ÉPOCA Mas o senhor não é o dono da Varig?
Audi
Não sou dono da Varig. Sou dono de uma empresa que comprou os direitos de rota e a marca Varig. Não tenho nada a ver com a Varig antiga. Tudo depende como você enxerga a coisa. Vamos anunciar a compra de 50 aviões em alguns dias. Isso gera 6 mil empregos imediatos.

ÉPOCA Mas as pessoas ficam confusas em relação a isso. A Varig acabou de mandar embora quase 6 mil. E o senhor diz que a sua empresa vai contratar pessoas. Não faz sentido.
Audi
A Varig Nova é uma empresa nova. Não tem nada a ver com a Varig antiga.

ÉPOCA O senhor não tem nenhuma responsabilidade sobre a Varig antiga?
Audi
Não tenho nada com eles. Há confusão. A operação global da Varig velha permanece com os credores e a Fundação Rubem Berta. Nós estamos construindo uma nova empresa. Que, com certeza, vai contratar gente. A nova empresa se chama VRG Linhas Aéreas S/A. É a nossa empresa. Não compramos a Varig antiga. Nós compramos um algo virtual que o juízo da recuperação vendeu. Eu neguei comprar os ativos tangíveis da Varig. Não comprei patrimônio. Comprei rotas e o nome. Só isso. Com isso eu recupero a marca. A Varig velha, que tinha seu patrimônio e as dívidas, é tudo deles (credores e Fundação Rubem Berta).
(Dr. Roberto Teixeira: "Há os ativos tangíveis e intangíveis. Comprou-se o intangível. Vale dizer que, no dia seguinte, o intangível valia zero. O parecer do juiz foi esse. O que eles compraram foi a unidade produtiva. É tão ignorante essa questão que o mercado acionário, da Bovespa, aumentou o valor da ação no dia seguinte da compra em 60%. Como eles fizeram isso! Eles não compraram a Varig. Não há ação da Varig nova)


Audi Outro dia me ligou um cara falando: "Posso comprar a Varig?". Eu disse que não tinha nada a ver com isso. E ele falou: "Mas você não comprou a Varig?". E eu disse que não. Os credores e Rubem Berta tem R$ 4 bilhões de ativos e mais não-sei-quanto de ICMS. Eles vão fazer liquidação lá. É muito fácil o cara falar alguma coisa sobre nós. Mas eles não nos conhecem. Daqui a cinco anos vão dizer que eu sou um cara que nasci virado para a lua.

 

 

Revista Época
27/08/06
“Audi não é piloto, é passageiro”
Jefferson Araújo de Almeida, ex-sócio de Marco Antonio Audi, faz revelações sobre o passado do novo dono da Varig
Eduardo Vieira

ÉPOCA O senhor é sócio do sr. Marco Antonio Audi?
Jefferson Araújo de Almeida
A minha empresa é sócia de uma empresa dele. A empresa Tucson Aviação Ltda é composta de duas empresas. A minha, chamada Airshop, e a dele, chamada Lumber.

ÉPOCA Como o senhor se tornou sócio dele?
Almeida
Eu era comerciante de aviões e usava muito o hangar Audi no Campo de Marte. Isso nos anos 90. Nessa época, o hangar pertencia ao pai do Marco, o Nagib Audi. Um dia propus de comprar o hangar. Mas ele me convenceu a levar só a metade. Então, fiquei sócio dele. Algum tempo depois, o Nagib deixou o negócio de aviões e passou a criar cavalos no interior de São Paulo. E o Marco passou a tocar o negócio. Daí nós fizemos um acordo de cotistas que previa uma série de regras para manter a sociedade. Mas ele começou a não cumprir essas regras. E eu descobri que ele praticava ilegalidades na gestão.

ÉPOCA Que tipo de ilegalidades?
Almeida
Pedi uma auditoria e descobri que ele estava importando peças de forma ilegal. Eu pedi que ele parasse com aquilo. Daí ele abriu um processo contra mim para me tirar da empresa. Pediu uma dissolução parcial da sociedade. Ele disse ao juiz que eu atrapalhava a gestão da empresa. E o juiz julgou por bem me afastar. Isso em 2001. Desde então travamos uma batalha judicial, porque o Audi mentiu. E o fato é que eu tenho 50% da empresa. E quero ele fora. Para isso, venho colecionando documentos que mostram como ele é desonesto.

ÉPOCA Quais documentos?
Almeida
Papéis que mostram crimes na gestão da Tucson, suspeita de contrabando, falsificação de assinatura, uso de documento público falso para ganhar uma licitação, descumprimento de regras da Infraero, dívidas trabalhistas, com o INSS, e por aí vai. Não sou só eu que o acuso. O Sindicato das Empresas Aeroviárias (Snea) também descobriu alguns desses documentos, pois fez uma devassa na vida dele. Audi deve para todo mundo, mas, subitamente, de uma hora para outra arrumou dinheiro para comprar a Varig.

ÉPOCA Como assim "deve para todo mundo"?
Almeida
Eu acho que, por baixo, ele deve uns R$ 100 milhões na praça. Mas eu não sou investigador de polícia. Quem tem de apurar isso são as autoridades. Eu entrei com diversos processos contra o cidadão. São todos públicos. Se as autoridades forem atrás, vão descobrir o passado dele.

ÉPOCA O senhor tem informações sobre a parceria do Audi com o fundo americano Matlin Patterson?
Almeida
Há dois anos, o Audi foi processado porque devia R$ 13 mil a um fornecedor. O juiz do caso não encontrou dinheiro e nem bens em nome dele para pagar a dívida. As empresas do Audi devem ao INSS. O que eu não entendo é como um sujeito cheio de dívidas, que já foi declarado pobre pela Justiça, conseguiu arrumar US$ 500 milhões para comprar a Varig. Diante disso, a única coisa que se pode concluir é que o dinheiro não é dele. É do fundo americano. O Audi pode até ter 80% do capital votante da Varig, mas isso não significa que ele é o dono da empresa. Então, meu amigo, para responder a sua pergunta, acho que isso tem nome. E não é "laranja". Isso é ter um pé de laranja lima no quintal de casa. Conheço o Marco há 30 anos. Dinheiro para comprar a Varig ele não tem.

ÉPOCA O senhor odeia o Audi?
Almeida
Não odeio ninguém. Só quero o que é meu. Ele se apropriou de maneira indébita de um patrimônio meu. Me afastou da sociedade porque era amigo do juiz. Meus telefones começaram a ser grampeados por ele depois do processo. Fui ameaçado diversas vezes. Fui até agredido.

ÉPOCA Pelo Audi?
Almeida
Não. Ele mandou pessoas para me agredir. Ele é agressivo. Anda armado. Os bolsos da calça dele são feitos especialmente para caber armas

ÉPOCA Que tipo de armas?
Almeida
38, magnum. Eu vi, era sócio dele, ocupávamos a mesma sala. Ele chegava pela manhã e tirava a arma do bolso para trabalhar. Botava na gaveta. Quando saía, pegava a arma e ia embora. Deve ser medo das pessoas que o perseguem, porque ele não paga as dívidas.

ÉPOCA Ele já ameaçou o senhor de morte?
Almeida
Não. Mas eu sinto que posso morrer a qualquer momento. Vasculhei a vida dele inteira. Eu conheço bem o Marco. E isso me torna uma pessoa perigosa para ele. Sou um arquivo vivo da vida dele. De uma parte que ele quer apagar.

ÉPOCA O senhor tem medo de morrer?
Almeida
Não. Já vivi 63 anos. E não tenho medo de nada. Mas que existe a possibilidade, não tenho dúvidas.

ÉPOCA O senhor conhece os outros sócios dele na Volo?
Almeida
Não.

ÉPOCA Sabe como o Audi conheceu eles?
Almeida
Não. A única coisa estranha é que parece que eles são laranjas do Marco. Outro dia um dos sócios foi visto chegando numa reunião num Uno. Nada contra o carro, mas quem compra a Varig pode ter um carrinho melhor, não é?

ÉPOCA Como o senhor acha que ele conseguiu dinheiro para comprar a Varig?
Almeida
Como eu já disse, acho que o dinheiro da Varig não é dele, mas sim do fundo americano. Mas isso não significa que ele não tenha dinheiro no exterior. O Audi ganha comissões sobre a venda dos helicópteros da marca americana Robinson. Agora, se traz esse dinheiro para o Brasil, é uma dúvida que eu tenho. Talvez ele guarde lá fora. Seria uma razão para ele se envolver com a Varig, na minha opinião. Talvez arrumar uma forma legal de pegar o dinheiro dele no exterior e trazer para o Brasil. Uma coisa é certa: ele não entende nada de companhia aérea, nunca foi piloto de avião, nem diretor de empresa aérea, nem nada. Tinha um hangar de helicópteros e uma indústria química. Em avião de linha aérea, ele é passageiro. Mas talvez tenha arrumado um esquema para se beneficiar com a crise da Varig. Talvez ele traga o dinheiro. O Banco Central dá OK, porque a transação é registrada. Mas talvez ele não aplique o dinheiro dele na Varig. Será que vai para o bolso dele? É outra dúvida que eu tenho. Mas não tenho dúvidas que ele vai declarar o Imposto de Renda dizendo que o dinheiro foi pra Varig. É muito esperteza, não é? Mas ele é assim. Esperto. Espero que as autoridades consigam enxergar isso.

 

 

Revista Época
27/08/06
Duas empresas, um só problema
A operação de salvamento da Varig transformou o mercado de aviação numa verdadeira confusão
Eduardo Vieira

Agência Estado
O choro de uma funcionária da Varig

Quando a crise da Varig começou a se acentuar, em meados do ano passado, dizia-se que a eventual falência da empresa poderia representar a implosão do mercado brasileiro de aviação civil. Com o tempo, essa idéia se mostrou equivocada. A Varig não faliu formalmente, mas deixou de operar de maneira decente há muito tempo. O mercado, contudo, sobrevive. E os analistas avaliam que o futuro do setor não depende mais da Varig. “TAM e Gol terão novos aviões no ano que vem. Isso vai suprir a demanda doméstica totalmente”, diz André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company.

Para entender melhor a situação do mercado, é preciso entender o que aconteceu após o leilão da Varig, em 20 de julho. Na realidade, a Varig não foi vendida. Foi dividida em duas empresas diferentes.

A primeira empresa, chamada de Varig “antiga”, permanece com a razão social Viação Aérea Riograndense S/A. Seus donos são a Fundação Rubem Berta, entidade mantida pelos funcionários da companhia aérea, e os credores da empresa. A Varig “antiga” ficou com as dívidas da empresa, de R$ 7,4 bilhões, com créditos judiciais a receber de R$ 4,5 bilhões (dinheiro a ser pago pelos governos federal e do Estado de São Paulo, sob a forma de impostos a restituir) e com imóveis e instalações.

Já a Varig “nova” é uma empresa que, no leilão de 20 de julho, comprou o direito de usar a marca “Varig”, as rotas da companhia aérea e o programa de milhagens Smiles. Sua razão social é VRG Linhas Aéreas S/A. E sua dona é a VarigLog, uma empresa de logística. A VarigLog, por sua vez, pertence à empresa Volo do Brasil. E a Volo do Brasil é uma empresa que tem quatro sócios: os brasileiros Marco Antonio Audi, Luiz Gallo e Marcos Haftel e o fundo americano Matlin Patterson.

Em teoria, a Varig “nova” deveria operar os vôos com a marca Varig. Mas ela ainda não obteve a autorização dos órgãos competentes para isso – o chamado Certificado de Homologação de Empresa de Transporte Aéreo (Cheta). Sem o Cheta, a Varig “nova” não pode voar. Por isso, quem opera atualmente é a Varig “antiga”.

Segundo informações da assessoria da Nova Varig, a frota que está em operação é de nove aviões. Todos eles pertencem à Varig “antiga”. A expectativa é que, a partir do dia 28 de agosto, a empresa coloque em operação mais cinco aviões que estavam em reforma. Essa é a situação que irá permanecer até que a Varig “nova” obtenha o Cheta. Os donos da empresa esperam que isso aconteça o mais rapidamente possível.

Funcionários no ar

A operação de salvamento da Varig, baseada na nova Lei de Falências, também é complicada no que diz respeito aos funcionários da Varig. A empresa tinha, na ocasião do leilão, pouco mais de 9 000 funcionários. Hoje são quase 4 000. Mas nenhuma das empresas, nem a Varig “nova” e nem a “velha” assumem a responsabilidade por eles. Há uma batalha jurídica em curso para definir a situação. Os advogados da Nova Varig, capitaneados por Roberto Teixeira da Costa, o compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizem que a empresa não tem responsabilidade pelos novos funcionários. Isso aconteceria se a Varig tivesse falido – o que, para os advogados, não aconteceu.

Já os advogados do Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), liderados por Otávio Bezerra Neves, acreditam que a Nova Varig é a sucessora – e a responsável – pela Varig. E, portanto, deveria arcar com a situação dos funcionários. Não se sabe quando uma decisão definitiva será tomada.

Devido ao imbróglio, a Nova Varig ainda não tem nenhum funcionário. Segundo sua assessoria, a empresa deve contratar 1 800 pessoas assim que receber a autorização para voar.

A briga por um espaço

A falta da autorização, concedida pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), é crucial para que a Nova Varig possa existir. Mas, mesmo sem operar oficialmente, a empresa não abre mão dos espaços nos aeroportos, que foram concedidos no passado à Varig “antiga”.

Esse assunto também está sendo discutido no âmbito jurídico. Durante o leilão, o juiz Luiz Roberto Ayoub, da 8ª Vara Trabalhista do Rio de Janeiro – que é o representante da lei responsável pela recuperação da Varig – determinou que a empresa terá o prazo de 30 dias para operar vôos domésticos e de 180 dias para a malha internacional. O prazo, no entanto, é contado a partir da obtenção do Cheta. Até lá, segundo o juiz, os espaços nos aeroportos estão congelados. “Durante este prazo a Varig não pretende modificar os atuais espaços nem abrir mão de seus direitos”, afirma a assessoria da Nova Varig. Mesmo não tendo a concessão, ela se envolveu na disputa pelo espaço.

Essa determinação deflagrou uma verdadeira guerra no mercado de aviação. As concorrentes da Varig, sobretudo a TAM e a Gol, começaram a atuar nos bastidores junto à Anac e à Infraero para liberar as áreas.

A disputa tem nuances de briga de rua. Na última quarta, 23, a Anac decidiu que iria redistribuir as áreas entre as companhias aéreas. Menos de uma hora depois do anúncio da decisão, o juiz Ayoub determinou que o congelamento permanecesse. No entanto, duas horas depois do comunicado do juiz, o Ministério Público Federal “recomendou fortemente” que a Anac retomasse o plano de distribuição.

Na quinta, 24, aconteceu uma reunião na Anac para discutir o assunto. Segundo informações obtidas por ÉPOCA, a advogada Valeska Teixeira, filha de Roberto Teixeira, teria sido informada sobre o conteúdo da reunião. Minutos depois, dois oficiais de Justiça do Rio de Janeiro interromperam o encontro.

A crise parece não ter fim. Em nota, a Anac afirmou que não descumpre a lei ao propor a redistribuição, pois a outorga de serviços aéreos é sua competência. Além disso, alega que qualquer debate nessa área deve ser conduzido na Justiça Federal, e não na estadual – a vara empresarial em que Ayoub atua pertence ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Nas estatísticas divulgadas nesta semana pela entidade, a fatia da Varig no mercado doméstico caiu de 24,79% em julho de 2005 para 3,54% em igual período deste ano. TAM e Gol já somam 87% do mercado. Segundo a Infraero, houve consenso das demais empresas em relação aos espaços de cada uma na redistribuição temporária dos balcões. Em Congonhas, a Varig tem hoje 16 balcões de check-in e a Infraero propôs uma redução para 6. Em Guarulhos, dos 54, a Varig ficaria com 14. A Nova Varig tem o compromisso de injetar US$ 485 milhões para recuperar a Varig “antiga” nos próximos dez anos. Mas, com tanta confusão, ninguém sabe se esse compromisso será honrado.

 

 

Revista Época
27/08/06
“O investimento estrangeiro tem de ser transparente”
O presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, diz que o controle do espaço aéreo é uma questão de segurança nacional. E que a participação do capital estrangeiro tem de obedecer a regras
Eduardo Vieira

Repodução
O presidente da TAM Marco Antonio Bologna
ÉPOCA Como o senhor avalia o atual momento do mercado de aviação no Brasil?
Marco Antonio Bologna
Acho que uma coisa é importante lembrar: nós somos um setor de infra-estrutura. Atendemos o consumidor, mas somos uma empresa de transportes. Por isso, é um setor regulado. Constitucionalmente, a obrigação do transporte aéreo é da União. E ela delega isso para as companhias aéreas, por concessão. Somos utilities. Que nem as empresas de água, de gás, de luz. Por isso existe uma agência reguladora. Não dá para "liberar geral" nesse setor. Ninguém "libera geral" no setor elétrico, nas telecomunicações. Há regras.

ÉPOCA O senhor acha que as regras estão sendo descumpridas?
Bologna
Algumas pessoas esquecem que o avião voa. E, por isso, existe um aspecto de segurança nacional em jogo. Portanto, há uma questão clara em relação à origem do capital. Tem de ter controle de capital. Nós não somos contra a participação do capital estrangeiro no Brasil. Mas achamos que o investimento estrangeiro tem de ser às claras. Transparente. A decisão tem de ser tomada aqui. O Brasil é um país continental. E todos os países de extensão continental controlam a participação estrangeira nas companhias aéreas. Quem mais controla, obviamente, são os americanos. Vide o 11 de Setembro.

ÉPOCA Como funciona esse controle nos outros países?
Bologna
Os Estados Unidos botam um limite para estrangeiros de até 25% do capital votante e 49% do capital total das empresas aéreas. Na China, o controle é estatal. O Brasil tem de ter controle. Mais ou menos 15 milhões de CPFs têm acesso a aviões. Portanto, o potencial do mercado de aviação é imenso. É claro que isso chama a atenção de todo mundo. O mercado vem crescendo há dois dígitos há dois anos. Um crescimento fantástico. Mas é preciso que as regras sejam transparentes. O céu do Brasil deveria ser administrado por brasileiros. Entendemos que a limitação brasileira, de 20% do capital votante, é frágil. É uma lei de 1986. Antes da Constituição. É uma legislação que precisa ser revista. Ela vale na forma, mas deveria valer na substância. E isso precisa acontecer no Congresso Nacional. Se o governo tiver interesse, somos apoiadores dessa discussão. Como foi debatido no setor de mídia, no setor financeiro, no setor de telecomunicações.

ÉPOCA Como anda a briga pelo espaço nos aeroportos?
Bologna
É um nó que precisa ser desatado. A 8ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro congelou um acervo de ativos intangíveis que foram arrematados no leilão da Varig. Mas esses ativos são, na verdade, outorgas do governo federal. Se não "desestressarem" esses ativos logo, ou seja, a área aeroportuária, os direitos de tráfego e os direitos de horário, quem estará sendo prejudicado não são as companhias aéreas. Não é a TAM, não é a Gol, não é a BRA, a OceanAir. É o consumidor.

ÉPOCA Quanto a mais de espaço a TAM quer?
Bologna
A área dos aeroportos deveria ser regida por um aspecto matemático. Quantos balcões pode ter a TAM? É proporcional ao número de vôos e ao tempo de atendimento. Nos grandes aeroportos do mundo, nenhuma companhia aérea tem propriedade de nada. Todos compartilham o espaço. Os balcões são móveis, retráteis. Aqui, não. Há um nó na infra-estrutura aeroportuária. Os aeroportos viraram uma confusão, não uma área de atendimento ao público. Os consumidores estão espremidos nos aeroportos. Basta ir a Congonhas, em Guarulhos, em Manaus. Uma empresa que não está servindo o público está com as áreas bloqueadas.

ÉPOCA O que deveria ser feito?
Bologna
É simples: para áreas essenciais, vale a regra do uso. Está usando, usa. Não está usando, devolva. A área do atendimento é do usuário, não é minha. Eu só estou lá porque preciso atender ao passageiro. No futuro, com a tecnologia, não vai ser assim. Provavelmente o usuário terá o bilhete reconhecido por um chip quando passar pela porta e irá direto para a área de embarque. Talvez o passageiro seja reconhecido pela íris. É preciso entender essas questões. Há, hoje, um gargalo no atendimento do transporte aéreo. Para resolver o problema, é preciso mudar.

ÉPOCA Qual é a sugestão da TAM para mudar?
Bologna
A pessoa que comprou a Varig avaliou os riscos quando comprou a empresa no leilão. Ela apresentou um plano para recuperar a empresa. Se já se conhece esse plano, o que ela não for usar precisa ser redistribuído. Vale dizer que a redistribuição é feita por licitação. Ninguém está querendo tomar nada. Nossa empresa é aberta. Somos listados na Bolsa de Valores, temos altos níveis de governança. Aqui, ao contrário de outras empresas, somos transparentes. O Aeroporto de Congonhas, o maior em movimentação da América Latina, tem aproximadamente 30% de suas áreas portuárias embargadas pelo judiciário. Áreas que foram concedidas para a Transbrasil e para a Varig, mas que são da União. Poderiam estar sendo usadas. Ou seja, um terço do aeroporto não gera receitas para a Infraero. A TAM é a maior operadora de cargas em Congonhas. E não temos terminal de carga lá, apesar de existirem áreas desocupadas e disponíveis. Não me parece justo.

ÉPOCA A Nova Varig diz que a concorrência praticada por vocês é cruel. Que a TAM faz um jogo sujo. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Bologna
Isso não procede. É uma inverdade. Nossa concorrência é transparente. Temos R$ 2 bilhões em caixa. Isso nos torna agressivos, mas dentro dos limites da competição empresarial. Não operamos por outros meios, se não ter preços competitivos e muita eficiência. Nada é oculto. Nossa participação de mercado foi conquistada. Ninguém nos entregou nada. Temos outros concorrentes bons. A Gol, por exemplo. Eu diria que, hoje, é a empresa que nos faz acordar mais cedo. Mas não subestimamos nenhum competidor. E em nenhum momento do nosso planejamento cogitamos que a Varig deixaria de existir. Nunca vencemos nada "na mão grande". Jogamos limpos. A regra é clara: os espaços nos aeroportos não são nossos. São do governo. Nós operamos. Se eles fossem nossos, eu adoraria jogá-los no balanço da TAM como ativos. Nossos acionistas iriam adorar.

ÉPOCA A Nova Varig não joga por esses instrumentos limpos?
Bologna
Não sei. Mas, quando não opero alguma coisa, eu devolvo ao poder concedente. Se é assim, porque existe essa reserva de mercado em relação aos espaços? Existe um processo de transferência no Judiciário. Arrematou, comprou, levou? Então ocupe! Tem 30 dias para ocupar os vôos nacionais. 180 dias para os internacionais? Se há plano de ocupar, por que não ocupam? Não é justo com o usuário. A rota de Milão, por exemplo, não voa há dois meses. Vá no site da Alitalia para ver o que aconteceu com o preço da passagem da classe econômica. O mercado está monopolizado. Por que não é licitado?

ÉPOCA O senhor acha que esse problema vai se resolver?
Bologna
Acho que é uma questão de tempo. A Lei da Recuperação Judicial ainda é nova. É claro que ainda terá ajustes. Mas, se teve um comprador maior de idade, vacinado, que dizem que tem muito dinheiro, então ocupa. Comprou? Ocupe. Por que avaliou, julgou, comprou, levou e, agora, não ocupa? Se não usa, devolva ao governo! Será licitado. Haverá audiência pública. A Nova Varig pode participar da licitação. Se tiver mérito, leva. Quem mostrar que tem mais capacidade leva. Isso vale para os vôos. Já nas áreas de atendimento, não precisa isso. Se a participação de mercado da TAM ou da empresa X aumenta, é porque tem mais gente voando nos aviões dela. Obviamente, quem tem mais vôos tem de aumentar a área de atendimento. Se eu perco passageiros porque sou ineficiente e não opero os meus vôos, por que preciso de espaço? Faço um desafio à Infraero: para não prejudicar ninguém, dê por encerrado os contratos de área de todos. Inclusive da TAM. Tire as áreas de todas as companhias. E redistribua de acordo com o número de passageiros que cada companhia aérea tem. É matemática: basta ver o número de passageiros embarcados por cada aeroporto. E redistribuir. É um critério democrático. Façam isso. E não venham dizer que estamos conspirando.